Entenda o papel da radioterapia no tratamento de tumores de cabeça e pescoço

Radioterapia é uma das modalidades terapêuticas mais importantes para esses tipos de tumor

O câncer de cabeça e pescoço é o quinto mais incidente no Brasil, em ambos os gêneros, causando cerca de 10 mil mortes ao ano. Dados do Instituto Nacional de Câncer – INCA apontam que, em média, 76% dos casos só são diagnosticados em estágio avançado, o que dificulta o tratamento e pode elevar a taxa de mortalidade.

A campanha Julho Verde visa à conscientização, prevenção e combate ao câncer de cabeça e pescoço; tipo de tumor maligno que se desenvolve na região da boca, orofaringe, laringe, nariz, seios nasais, nasofaringe, órbita, pescoço, tireoide, couro cabeludo, pele do rosto e do pescoço. A campanha foi criada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) em 2015.

Tratamento com Radioterapia

O câncer de cabeça e pescoço pode ser tratado com radioterapia, e essa é uma das modalidades terapêuticas mais importantes para esses tipos de tumor.

Ela pode ser usada:

  • Como tratamento principal (definitivo), muitas vezes em associação com quimioterapia;
  • Após cirurgia (adjuvante), com objetivo de reduzir o risco de recidiva local;
  • Tratamento paliativo, para controlar sintomas em estágios avançados.

“A grande maioria dos nossos casos são tratados com a técnica de VMAT, que é basicamente o IMRT em arco (Radioterapia de Intensidade Modulada). Ela modula a intensidade da radiação em diferentes áreas do campo de tratamento, o que é essencial em regiões como cabeça e pescoço, onde há muitos órgãos sensíveis (glândulas salivares, medula espinhal, boca, garganta) e também ajuda a reduzir os efeitos colaterais como boca seca (xerostomia) e disfagia. Além disso, a equipe também acompanha a evolução do tratamento com sistemas de imagens que permitem saber se o tumor está respondendo e se precisamos fazer um replanejamento para readequar o mesmo a mudança anatômica que o paciente sofre durante o tratamento (geralmente emagrecem ou as lesões diminuem de tamanho”, aponta Hugo Veroneze Toledo, físico médico do Oncoville, clínica de radioterapia.

A escolha da técnica adotada depende da localização exata e estágio do tumor bem como o estado geral do paciente, além da verificação da existência de cirurgia prévia.

O estudo intitulado “Global, regional, and national trends in the burden of melanoma and non melanoma skin cancer: insights from the Global Burden of Disease Study 1990–2021” (Tendências globais, regionais e nacionais na carga de melanoma e câncer de pele não melanoma: insights do Estudo da Carga Global de Doenças 1990-2021), publicado no JAMA Dermatology em maio deste ano, teve como objetivo avaliar a carga global de câncer de pele entre adultos com 65 anos ou mais de 1990 a 2021 e projetar sua mudança até 2050.

Os principais achados no estudo mostraram que a incidência e carga (medidos em ASIR e ASDR) um aumento do câncer de pele devido ao envelhecimento da população, principalmente entre pessoas com 65 anos ou mais. O envelhecimento populacional mundial acaba alterando o perfil epidemiológico ao favorecer o predomínio de doenças crônicas e não transmissíveis, como o câncer.

De acordo com o estudo, a incidência de carcinoma basocelular (BCC) cresceu 61,3%, e a prevalência, 63,5%. Os dados para o carcinoma espinocelular (SCC) indicam um aumento de 42,5% na incidência e 49,6% na prevalência. Vale destacar o crescimento expressivo principalmente entre homens e em países com alto índice sociodemográfico (SDI).

Vale dizer que a tendência do aumento da doença em faixas etárias mais avançadas também foi observada, também, num estudo realizado no Japão, que identificou aumento na proporção de pacientes com mais de 70 anos entre os casos de câncer de pele: de 44% em 1989 para 74% em 2021. Esse dado corrobora a associação entre envelhecimento populacional e maior incidência da doença.

No ano de 2021, os dados globais mostraram 2,8 milhões de novos casos de BCC, 1,4 milhão de SCC e cerca de 154 mil melanomas em idosos. O carcinoma basocelular apresentou a maior taxa de incidência (372 por 100 mil habitantes), enquanto o carcinoma espinocelular foi responsável pelo maior número de mortes e pelo maior impacto em anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs).

Chama a atenção no estudo as disparidades significativas relacionadas ao gênero, ou seja, os homens apresentaram taxas de incidência e mortalidade substancialmente mais altas, especialmente para o SCC, cuja incidência foi quase 2,3 vezes superior à observada entre mulheres.

O estudo indica que essa diferença pode estar relacionada a uma menor adesão masculina a comportamentos preventivos, como o uso de protetor solar e consultas dermatológicas regulares, além de maior exposição devido ao tipo de trabalho ao sol. Outro dado que se destaca diz respeito à idade no controle do melanoma, que frequentemente resultam em subtratamento e acesso limitado a terapias cirúrgicas e médicas avançadas, especialmente entre os mais idosos. Além disso, os estudos mostram que os homens tendem a procurar atendimento médico em estágios mais avançados da doença, o que contribui para prognósticos não tão bons.

O artigo publicado não detalha a situação brasileira. O câncer de pele não melanoma é o tipo mais frequente no Brasil e são estimadas para o triênio 2023-2025, de acordo como o Instituto Nacional de Câncer – INCA, maiores taxas de incidência em homens nas regiões Sul (135,86 por 100 mil), Sudeste (121,40) e Centro-Oeste (77,45). No Nordeste (68,97) e no Norte (17,69), segundo o INCA, o câncer de pele não melanoma aparece como o segundo tipo mais frequente entre diagnosticados em homens.

Para mais informações, acesse: https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2834545

A radioterapia é uma ferramenta fundamental no tratamento de muitos tipos de câncer metastático, seja com o objetivo paliativo (para o controle da dor) ou de forma curativa ou ablativa (que é o controle local prolongado).

O rádio-oncologista Henrique Balloni, do Oncoville, clínica de radioterapia, explica que o câncer metastático pode ser tratado com radioterapia, porém, o objetivo e a forma de uso vão variar caso a caso. “A radioterapia é usada principalmente para aliviar sintomas causados pelas metástases, como dor óssea intensa, compressão da medula espinhal, sangramentos e obstruções, por exemplo, das vias aéreas ou intestinais. Na forma curativa, podemos usá-la em alguns casos muito específicos de oligometástases, ou seja, quando há poucas metástases em locais controláveis. O objetivo tanto na forma paliativa quanto curativa, é proporcionar melhora na qualidade e vida e prolongamento da sobrevida em alguns casos.”

Cânceres metastáticos frequentemente tratados com radioterapia

Metástases ósseas: dos cânceres de mama, próstata, pulmão, rim, tireoide. Neste caso, o principal objetivo é o controle da dor, prevenção de fraturas patológicas, melhora da função, geralmente em regiões como coluna, pelve, fêmur, costelas. As técnicas de radioterapia usadas são Radioterapia conformacional 3D (3D-CRT); IMRT ou SBRT para lesões únicas ou oligometastáticas.

Metástases cerebrais: com origem comum o pulmão, mama, melanoma, rim, o objetivo é o controle de sintomas neurológicos, edema, prevenção de sangramento ou progressão. As técnicas de radioterapia usadas são Radiocirurgia estereotáxica ou Irradiação cerebral total – para casos múltiplos ou difusos.

Metástases pulmonares (oligometastáticas): que têm origem comum os cânceres colorretal, mama, sarcoma, rim, o propósito é o controle local de poucas lesões (oligometástases). A técnica recomendada é a Radioterapia Corporal Estereotáxica (SBRT), com doses ablativas de alta precisão.

Metástases hepáticas: quando a cirurgia não é possível e as lesões são pequenas e isoladas. É usada a técnica SBRT, com controle local semelhante à ablação por radiofrequência.

Metástases em linfonodos distantes: como linfonodos retroperitoneais, mediastinais ou cervicais, são tratadas com radioterapia em contextos paliativo ou oligometastáticos. Usa-se a técnica é IMRT ou VMAT (modulação volumetria).

As sessões de radioterapia podem variar de dose única a múltiplas (frações), dependendo da localização, sintomas e estado geral do paciente. O tempo de cada sessão também varia de paciente a paciente.